MINHAS DICAS

Como conciliar amamentação e trabalho: experiências práticas de mãe de trigêmeos mais uma – parte 2.

Ana Schoriza, doula, consultora do sono na gestação e na infância e mãe de trigêmeos mais uma. Advogada de formação. Site: mamaedossonhos.com

No post anterior, tratei do tema da conciliação da amamentação e trabalho sob o enfoque da legislação trabalhista, destacando algumas normas de proteção à empregada lactante. Hoje, trago aqui algumas dicas decorrentes da minha experiência pessoal com a amamentação e trabalho: primeiro, como mãe de primeira viagem, e, em seguida, como mãe de trigêmeos amamentados. Esclareço, desde logo, que não pretendo esgotar o assunto, ou de me julgar perfeita no que fiz (na verdade, tive erros e acertos!). O principal objetivo é fomentar o debate e divulgar algumas formas de tornar possível a manutenção do aleitamento materno após o retorno ao trabalho, solicitando a ajuda de todas vocês com comentários e compartilhamentos.

A primeira dificuldade relatada pelas trabalhadoras lactantes à conciliação da amamentação com o trabalho fora de casa é justamente o curto período da licença-maternidade, de apenas 120 dias (art. 392, Consolidação das Leis Trabalhistas). Logo se percebe o descompasso desta norma com as recomendações Organização Mundial de Saúde (OMS), de 6 (seis) meses de aleitamento materno exclusivo. Para complicar, há, também, aquelas mães autônomas ou empresárias que, se não trabalharem, não ganham o seu próprio sustento, o que muitas vezes reduz ainda mais o período com o bebê.

Há pouco tempo participei de um Simpósio Internacional sobre Parto, no qual um médico palestrante do Canadá, árduo defensor da amamentação, Jack Newman, falou claramente que um país sério não concede licença-maternidade menor do que a de 6 (seis) meses à mulher, o que destoa da realidade brasileira. [1]

Assim, o que se vê são mães desesperada em introduzir a mamadeira e papinhas atabalhoadamente, com medo do bebê não se alimentar após o seu retorno ao trabalho, o que na maioria das vezes implica o desmame precoce.

Sobre minha vivência pessoal com a amamentação e o trabalho, depois da minha primeira gestação, retornei ao meu posto de advogada em uma empresa da Prefeitura de São Paulo, deixando minha filha com uma babá. Achei que não era o momento de colocar em uma escola ainda. Por sorte que trabalhava em uma empresa que já havia aderido aos 6 (seis) meses de licença-maternidade (Programa Empresa Cidadã, Lei nº 11.770/2008 – fique de olho e incentivem a adesão), garantindo o aleitamento exclusivo nos primeiros meses de vida da minha primeira filha. Além disso, organizei-me com relação às férias vencidas, gozando-as ao final da licença-maternidade.

No entanto, os meus primeiros meses de amamentação não foram tão maravilhoso quanto imaginava, ou lia por aí. Por meses, sofri com fissuras nas mamas, que chegavam a sangrar. Quantas vezes chorei ao amamentar. Minha bebê fazia barulhinhos e covinhas nas bochechas ao sugar o meu seio, o que é indicativo claro da pega incorreta. Como eu me virava? Secador de cabelos nos seios e leite materno envolta do bico antes e depois de amamentar, choro meu e dela e muita persistência. A pega foi se ajustando com o tempo, sendo que o aleitamento mantido até 1 ano e 2 meses de vida da minha primeira bebê. Hoje, percebo que tudo isso poderia ter sido evitado se tivesse procurado ajuda de profissionais ligados à amamentação (consultoras de aleitamento materno e doulas) ou de pediatras antenados em amamentação, que atendem a domicílio, vencendo as dificuldades de sair de casa nos primeiros meses.

O aleitamento materno em conciliação ao trabalho até 1 (ano) da minha primeira filha não foi exatamente o que se considera o ideal, ou seja, os 2 (dois) anos de idade da criança, ou mais. Se eu tivesse procurado mais informações sobre os benefícios do leite materno muito além dos 6 (seis) meses, talvez tivesse seguido mais adiante. Mas, de outro lado, não me martirizo. Foi o que melhor pude fazer naquele momento.

Aliás, considero que o primeiro passo para fortalecer a ideia da manutenção do aleitamento materno é a conscientização da importância deste alimento para o bebê, como o único que contém anticorpos para a sua imunidade a doenças, sem falar no gasto calórico pela mãe e prevenção do câncer de mama, troca de afeto entre mãe e filho, completude em nutrientes e de água em quantidade suficiente ao bebê, e prevenção da morte súbita no recém-nascido, o que me motivava a seguir com a amamentação. Alerto para o fato de que, por mais semelhantes que tente ser uma fórmula, não passa perto do que traz o leite materno de benefícios ao bebê, podendo causar alergias, diarreias e obesidade sobretudo.

A forma mais comum utilizada para manutenção da produção do leite materno é a realização da ordenha durante a jornada de trabalho. E era isso que eu fazia, levava todos os dias comigo uma bombinha elétrica locada para a retirada do leite materno na hora do almoço, acondicionando-o em geladeira, e transportando-o para casa no fim do dia, com o intuito de minha bebê ser alimentanda na tarde seguinte. Por 6 (seis) meses, fui eu para o trabalho com minha bombinha e a caixinha de isopor, enfrentando a cara feia de algumas pessoas, filhos de chocadeiras.

Como quando voltei ao trabalho minha filha já se alimentava, e eu fazia uso do horário reduzido em razão da amamentação (em três horas até um ano de idade, por conta de acordo coletivo de trabalho e de pedido de redução do horário de almoço para 15 minutos), em apenas uma refeição da tarde dependia do meu leite ordenhado. Assim, nunca precisei de complementos de leites artificiais até o desmame total da minha bebê, com 1 ano e 2 meses, quando retornei à uma rotina exaustiva de trabalho, em nova área e nova chefia. Foi o fim da amamentação.

Por falta de conhecimento das facilidades e benefícios dos copinhos de transição, confesso que cedi à mamadeira no período em que estava no trabalho. Por sorte que isso somente ocorreu após o meu retorno ao trabalho, e em apenas uma mamada, quando Heloisa já tinha quase 8 (meses), o que não provocou o desmame do seio. Mas convenhamos que a introdução da mamadeira foi totalmente desnecessária e arriscada.

Aliás, o polêmico uso da mamadeira no retorno ao trabalho (ou antes disso) pode ser um grande vilão do desmame precoce, o que aconteceu na prática com os meus trigêmeos por circunstâncias especiais (como será visto a seguir). Lembrem-se que a alternativa mais recomendada é o uso de copinhos pelos cuidadores que ficarão com a criança. Tem vários vídeos, textos e especialmente profissionais especialistas, como as consultoras em aleitamento materno que podem auxiliar no seu uso (e orientar, também, sobre boa pega, fissuras, formas de amamentar, desmames), de melhor aceitação para o bebê. Recentemente, em uma consultoria de sono, ensinei uma mãe, que estava apreensiva com a nova fase da bebê, a transição do desmame para o copo.

Com relação aos meus trigêmeos prematuros, segui firme com aleitamento materno em revezamento até onde foi possível, aos 8 (oito) meses de vida, quando os bebês passaram a rejeitar o seio devido à introdução precoce da mamadeira na uti neonatal. Por favor, peço que não me critiquem, antes de ouvir o que tenho a relatar.

De início, em razão do baixo peso, os bebês mamavam por sonda. E eu contava os dias de poder pegar os meus bebês no colo para amamentá-los. Como tinha um horário certo de realização das mamadas na uti neonatal, a cada 3 (três) horas durante 1 (uma) hora, eu tinha que escolher um dos bebês para ser amamentado, o que era um trabalho delicado devido ao baixo peso deles. Os outros dois usavam mamadeira, oferecidas pelas técnicas de enfermagem. Muitas vezes, eu chegava à uti minutos após os bebês terem sido alimentados (me dividia com os cuidados com a minha filha maior em casa, de apenas 2 anos). Era decepcionante. E quantas vezes ouvi para não escolher se iria mesmo amamentar para não perderem calorias (que absurdo!). Depois, cada bebê foi tendo alta em épocas diferentes. Tinha que amamentar um ou dois bebês em casa e outro no hospital.

Além disso, depois de 15 (quinze) dias em casa, os trigêmeos contraíram bronquiolite, um a um, o que resultou em um bebê na uti de um hospital da zona sul, outro na zona leste e a menina em casa. Cheguei a usar o banco de leite dos dois hospitais em um só dia, por medo dos meus bebês precisarem de anticorpos do meu leite para sobreviverem.

Quando os bebês tiveram alta, levei meu próprio leite estocado no banco de leite do hospital para casa pasteurizado. Em casa, enquanto dormiam, eu tirava na bomba elétrica o leite para oferecer ao bebê que não tomaria leite direto do seio na próxima mamada. Tudo em prol de retardar ao máximo o início do leite artificial. Entretanto, devido ao caso de trigêmeos ser de alta demanda e envolver refluxo constatado por exame (e jorros de leite materno expelidos pós- mamadas), com o tempo, tive que complementar o leite materno com fórmula, pois chegou o momento em cada um já tomava 150 mls de leite em cada mamada.

Em dado momento, percebi que minha produção de leite não era mais a mesma, resolvi que não deveria mais usar a bomba elétrica, oferecendo somente o seio direto do seio tanto quanto tivesse no momento, enfrentando o medo do refluxo da trigêmea do meio especialmente, e a quantidade de leite produzida aumentou novamente. Assim, restou comprovado que a melhor forma de aumentar a produção de leite é a sucção do bebê direto no seio. Esta foi uma fase exaustiva, mas maravilhosa (desta vez sim). Diferentemente da primeira amamentação, não tive fissuras nos seios. E assim fomos até 8 (oito) meses de vida dos trigêmeos, até que passaram a rejeitar o meu seio, um a um. Não como ir além disso.

Sobre meu retorno ao trabalho após o término da minha licença-maternidade dos trigêmeos, foi catastrófico. Não suportei nem um mês. Preferi amamentar sem amarras a voltar a um lugar que já não era mais meu. Tornei-me uma nova mulher, mãe de trigêmeos mais uma, de advogada concursada à doula e consultora do sono materno-infantil. Mas esta é uma outra história.

Enfim, espero ter trazido alguma novidade e incentivo às vocês. Lembrem, o leite materno é o melhor alimento para o seu bebê. Em caso de qualquer dificuldade, procure antes um profissional capacitado para lhes orientarem.

 

 

[1] Embora, exista uma lei (nº 11.770/2008) que permite que as empresas estendam o período da licença-maternidade para 6 (seis) meses em troca de benefícios fiscais (conforme mencionei na primeira parte deste post), como a adesão é optativa, poucas empresas adotam a nova norma.

 

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